Jornal São Paulo Zona Sul

Você sabe o que é economia circular?

No passado, uma economia vibrante e saudável era aquela que valorizava o processo industrial e o consumo. Só. Mas, aos poucos, o modelo que prevê um ciclo iniciado pela extração de matéria-prima da natureza, seguido pelo uso de água e energia para sua transformação e transporte, e concluído pelo consumo por período limitado de tempo e descarte mostrou-se inadequado para a humanidade.

A extração e uso de recursos para além da capacidade de natureza em se regenerar é um processo que está comprometendo o meio ambiente de tal forma que talvez os seres humanos não consigam mais água limpa e solo saudável para plantio no futuro. Sem falar na poluição do ar e comprometimento da camada de ozônio.

Na outra ponta, o excesso de descarte, com consequente carga enorme de resíduos produzidos, também está transformando o planeta em um imenso depósito de lixo. Cidades como São Paulo, em breve, não terão mais espaço para aterrar o lixo se não houver mudanças de hábitos, com diferente destinação final dos resíduos.
O que precisará ser feito, então? Exportar o lixo e colocar essa conta no bolso do contribuinte? Ainda assim, para onde irá todo esse lixo, já que o planeta é um só?

O Instituto Lixo Zero Brasil estima que 90% do lixo produzido na capital poderia ser reaproveitado de alguma forma: com transformação em adubo, geração de energia, reciclagem ou reaproveitamento.

Vale ainda lembrar que “o melhor resíduo é aquele que não é gerado”, ou seja, evitar o consumo de itens de pouca durabilidade, como artefatos plásticos descartáveis, e reaproveitar materiais ainda são melhores caminhos para uma economia saudável.

Em meio a esse debate urgente, um conceito importante vem ganhando força: a economia circular. Se, por um lado, a economia precisa girar com produção e consumo para geração de emprego e renda, por outro é fundamental que gere negócios para empresas de diferentes portes, organizações e indivíduos, tanto em âmbito global quanto local.

Economia linear

Diferente da economia linear – que extrai, produz, vende e descarta, ou seja, prevê o final de um ciclo – a economia circular tem por princípio que tudo aquilo que for manufaturado deverá voltar ao ciclo ao final de seu uso.

A estimativa mundial é de que, por ano, cerca de 80 bilhões de toneladas de matérias primas extraídas do meio ambiente entram no processo produtivo em todo o planeta.

Ao final da vida útil, todos os produtos advindos desse material poderia parar em aterros sanitários ou até mesmo descartado irregularmente nas ruas, rios, praias, florestas e oceanos.

Já na chamada economia circular, são os resíduos que devem ser usados no processo de produção de novos artigos. Se na natureza, folhas e sementes se transformam em adubo para novas plantas, no processo industrial é importante “imitar” esse ciclo: não existe resíduo e tudo – ou quase tudo – é continuamente reaproveitado.
Rejeitos e novos

materiais recicláveis

Há, obviamente, alguns resíduos que não podem ser reaproveitados. O papel higiênico, os papeis engordurados, fraldas descartáveis e absorventes, bitucas de cigarro são alguns dos itens que devem ir diretamente para o lixo e não conseguem ser reaproveitados, transformados ou reciclados.

Há outros materiais de uso cotidiano que também não contam com processo de reciclagem ou reaproveitamento na atualidade: papel carbono (como aquele usado em comprovantes e notinhas de pagamento) ou papel plastificado e fotográfico; acrílico; cerâmica; cabos de panelas, negativos de filmes são alguns exemplos.

Assim, uma economia de futuro, circular, deve evoluir para o uso de materiais alternativos a esses ou estabelecer tecnologias para garantir o reaproveitamento e reciclagem daquilo que atualmente acaba no lixo comum.

Reciclagem

Nesse novo mundo da economia circular, a reciclagem tem um papel fundamental.

Materiais como alumínio e vidro, que podem ser indefinidamente reciclados e em sua totalidade, ganham grande importância.
Grandes metrópoles, como São Paulo, precisam cada vez mais investir na coleta seletiva do que pode ser reciclado: papel, plástico, metal e vidro.

E o investimento maior, como se pode perceber na atualidade, é na conscientização da população. A estimativa é de que 40% do material que vai para os aterros poderia ser reciclado mas apenas 7% efetivamente são. Por que? Baixa adesão.

O alcance da coleta seletiva porta a porta na capital já é de 70% e a Prefeitura pretende atingir 100% nos dois próximos anos. O cidadão interessado ainda consegue levar o material a supermercados, postos de entrega voluntária e outros pontos e programas que recebem recicláveis.

Nas zonas Sul e Leste da capital, tanto o serviço de coleta seletiva quanto a domiciliar tradicional são prestados pela concessionária Ecourbis Ambiental. Para saber dia e horário em que o caminhão passa em sua rua, acesse: https://www.ecourbis.com.br/coleta/index.html. Basta reunir, em uma só embalagem, todo papel limpo, plástico, vidros e metais – esses itens serão posteriormente separados em cooperativas ou na Central Mecanizada de Triagem.

Moradora da Vila Gumercindo e diretora pedagógica de uma escola na Vila Mariana, Valéria Engelstein separa recicláveis há muitos anos e repassa esses hábitos aos filhos gêmeos André e David. Mas ao mesmo tempo adota uma visão crítica sobre a questão. “Estamos muito longe de ser um país ou uma cidade verdadeiramente preocupados com o meio ambiente. Vejo ações isoladas, boas intenções, mas tão logo dê trabalho , as ações são abandonadas”, observa.

Ela relata, como exemplo, o prédio onde mora. “Temos uma gestão bastante preocupada com a reciclagem, com locais próprios para separar os materiais e muitas campanhas de orientação aos condôminos”, elogia.

Em contraposição, lembra que recentemente houve orientação de segurança para que fossem retiradas as lixeiras para depósito de recicláveis que havia em cada andar. “Era muito prático, mas agora os condôminos precisam levar o material até o subsolo”, conta, explicando que um novo trabalho de conscientização se tornou necessário e nem todos estão cooperando.

Marcos Engelstein, marido de Valéria, é biólogo e fica indignado com hábitos de consumo lesivos ao meio ambiente, por conta justamente da geração de resíduos. “Ele ficava impressionado com a quantidade de colherzinhas, pratinhos e tantos outros descartáveis em festas. Com o tempo, fomos comprando tudo de vidro para usar nos anos seguintes…

Valéria e Marcos, entretanto, apostam que a educação pode trazer bons resultados. “Nos supermercados, vemos maior adesão ao uso de caixas de papelão e sacolas retornáveis em lugar das sacolinhas de plástico”, aponta. “Crianças e jovens ainda estão pouco engajados, mas creio que devemos dar exemplo e insistir com as práticas”, diz. “Nem sempre é fácil descartar adequadamente o lixo.

Como qualquer compromisso, dá trabalho, mas dá satisfação também”, conclui.

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