Jornal São Paulo Zona Sul

Separar recicláveis muda atitudes

A cidade ficou bem mais limpa especialmente nas primeiras semanas de quarentena, quando o movimento pelas ruas caiu drasticamente.

Não só as bitucas de cigarro ou papeis de bala deixaram de ser jogados pelas calçadas e pontos de ônibus, por estarem mais vazios. Ficou reduzido também o despejo irregular de entulho pelas esquinas, a poluição causada pelo tráfego intensos também diminuiu, assim como a poluição sonora.

Agora, com a reabertura paulatina dos negócios, o aumento de circulação de pessoas, será que as vias voltarão a ficar sujas? Ou a percepção de uma cidade mais limpa fez com que as pessoas passassem a reconsiderar a importância de não jogar nada fora de papeleiras e bituqueiras?

A educação para a questão dos resíduos envolve vários aspectos, mas sem dúvidas o mais importante deles é o entendimento do que acontece dentro de casa.

Assim como o cidadão não gosta de ver sujeira dentro de casa, também vai se incomodar com a sujeira nas ruas?
Difícil prever com segurança, mas algo tem ficado cada vez mais claro: quem cuida da limpeza e dos resíduos gerados dentro de casa, cuida também melhor da rua, do bairro, da cidade… do planeta!

Dinheiro no lixo

Moradora da Vila Mariana, Monica Cristina não costumava fazer a separação do lixo em casa até dois anos atrás. Achava o processo muito trabalhoso, considerava que levaria muito tempo.

No entanto, quando percebeu que a coleta seletiva passava duas vezes por semana em sua rua, decidiu começar a colocar algumas embalagens, deixando a casa menos tempo sem “lixo”. “A coleta comum já passava três vezes por semana e então descobri que havia outro caminhão, em outro horário, também recolhendo e só aí percebi que a coleta seletiva de materiais recicláveis acontecia em dias diferentes”, lembra.

Ela passou, inicialmente, a separar apenas algumas embalagens de papel: caixas de café, de bombons, de ovos.

Esse primeiro passo levou a outros aprendizados. “Comecei a notar a quantidade de garrafas pet que saíam de casa: água mineral, refrigerantes, óleo, molho de soja. E passei a achar absurdo jogar tudo aquilo no lixo comum, sendo que poderia até gerar renda para catadores”, relembra.

Em pouco tempo, percebeu, já estava separando vidros e todo metal dos enlatados – molhos, leite condensado e creme de leite, atum e sardinha, molho de tomate, milho em conserva… “Há uma infinidade de produtos que trazemos pra casa na forma de embalagens e que eu simplesmente descartava. Hoje entendo que estava jogando dinheiro fora”, diz ela.

A moradora diz que essa visão se expandiu para outras situações domésticas. Ela, que vive apenas com a filha de 10 anos, diz que passou a prestar atenção aos brinquedinhos e brindes que a filha trazia para casa, depois de passeios e saídas para lanches, e que acabavam como resíduo. “Era divertido ganhar, apenas. Não tinha valor duradouro. Agora, ela entende que apenas trazia lixo para casa e nem faz mais questão dessas bugigangas”, resume.

Renda

A coleta seletiva, o processo de triagem do material e a venda dos recicláveis, propriamente dita, formam um ciclo que tem importância não apenas ambiental, mas também social, já que milhares de famílias vivem desse trabalho.

“Muitas famílias obtém toda sua renda em cooperativas, especialmente com mulheres sustentando a casa”, conta Telines Basílio do Nascimento Júnior, mais conhecido como Carioca. Ele preside uma cooperativa de catadores que está entre as 25 conveniadas com a Prefeitura – a Coopercaps – na zona sul de São Paulo. Ele próprio conta ter mudado sua história quando passou a atuar coletivamente em cooperativas, em vez de fazer coleta e triagem por conta própria.

As cooperativas que atuam na coleta seletiva em São Paulo tiveram suas atividades temporariamente suspensas em razão da pandemia de coronavírus. Trata-se de uma medida necessária para preservar a saúde dos catadores, mas durante a interrupção das atividades os catadores cooperativados e autônomos estão recebendo um auxílio. Só na capital, são 900 pessoas.

Assim, a pandemia destacou também a importância econômica da reciclagem para milhares de famílias. “Os catadores são agentes ambientais, há essa importância de preservação da natureza. E ao mesmo tempo é também a profissão dessas centenas de pessoas que transformam o material coletado em recursos para sustentar suas famílias”, completa Telines.

As cooperativas estão com as atividades suspensas, mas a coleta seletiva continua acontecendo normalmente na cidade e teve até aumento de 25% no volume durante a quarentena, com as famílias por mais tempo em casa e consumindo mais em ambiente doméstico.

Nesse período, as Centrais Mecanizadas de Triagem estão operando com toda sua capacidade para fazer a separação dos recicláveis coletados. Nas zonas sul e leste da Capital, o serviço é prestado pela Ecourbis Ambiental, que mantém equipes e caminhões tanto para a coleta domiciliar tradicional quanto para a coleta seletiva.
Para saber a data em que o serviço é prestado em sua rua, basta acessar: www.ecourbis.com.br/coleta/index.html.

Olhar sobre a cidade

Entender que desenvolvimento econômico e proteção ao meio ambiente fazem parte de uma mesma equação é essencial para garantir um futuro melhor e mais saudável para a humanidade. A pandemia de Covid só veio reforçar esse conceito já apregoado por ativistas ambientais há muitos anos.

Mariana Augusto, moradora de Mirandópolis, conta que depois que passou a fazer a separação dos recicláveis muita coisa mudou em sua vida.

Além de reforçar a ideia de que aprendeu melhor a economizar em casa, evitando desperdício e reaproveitando o que for possível, ela admite que passou a se incomodar mais com o que vê diariamente pelas ruas.

“Eu sempre me incomodei com a sujeira, claro, mas quando comecei a cuidar mais do lixo em casa, separando os recicláveis, parece que tudo me saltava aos olhos. Até hoje não me conformo de as pessoas jogarem bitucas de cigarro no chã, por exemplo”, conta.

Autônoma, ela circula muito de carro pelas ruas, por conta do trabalho. “Ver entulho nas esquinas, um sofá velho abandonado me entristece muito. Há formas de se desfazer de tudo – do papel de bala ao móvel velho – sem precisar sujar a cidade. Separar materiais em casa para a reciclagem reforça esses conceitos na gente”, completa.

Mariana tem razão. Os pequenos resíduos cotidianos podem ser mantidos em saquinhos nas bolsas, até que possam ser descartados corretamente, em alguma lixeira. Já os itens de grande porte, como móveis velhos, podem ser descartados por meio das Operações Cata Bagulho ou em Ecopontos – a programação e o endereço em seu bairro podem ser obtidos pelo telefone 156.

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