Jornal São Paulo Zona Sul

Famílias pequenas evitam desperdício

A quarentena tem provocado reflexões, mudanças de rumo, transformado hábitos e despertado novos planos em muita gente. A pandemia do novo coronavírus tem deixado as pessoas isoladas em casa, estimulado o trabalho à distância, criado novos laços familiares e também modificando a maneira com que se relacionam com a rotina doméstica.

Famílias passaram a perceber mais a importância de planejar compras e o cardápio, de cozinhar. Notaram ainda a quantidade de resíduos que podem gerar se esse planejamento não for bem executado – seja com excesso de embalagens, seja com alimentos que estragaram sem sequer terem sido preparados, ou com comida em excesso que acabou na lixeira. No caso de pessoas que vivem sozinhas ou em casais, ou seja, famílias pequenas, também é preciso muito planejamento e atenção para evitar o desperdício e cada família tem que encontrar a melhor forma de economizar e evitar resíduos.

A geração de muito “lixo” representa um alto custo não apenas familiar, mas igualmente social e ambiental. Especialmente nesse momento em que o mundo está buscando redefinir estratégias para criar renda e garantir a saúde da população mundial, prestar atenção aos resíduos produzidos diariamente em casa ou fora dela é uma atitude que ganha importância extra.

O futuro da economia, alertam especialistas, terá que focar em redução de consumo, melhor aproveitamento de verba, respeito aos recursos naturais. Se essa lógica vai valer para todo o planeta, dentro de casa é igualmente essencial respeitar esse novo ritmo.

Planejamento

No Jabaquara, Miriam Bock mora com o marido, há mais de 50 anos. Ela tem dedicado o tempo da quarentena a observar a cidade de uma forma diferente. “Diminuiu a poluição do ar, surgiram borboletas no meu jardim, aumentou o número de pássaros”, relata ela, que vive nas proximidades do Parque do Estado e já estava acostumada a ver aves sobrevoando sua rua. “Mas não como agora”, completa.

Os aviões, que não a deixavam ver tevê ou conversar ao telefone, desapareceram. A poluição sonora também diminuiu com menor circulação de carros e pessoas. “Estou me sentindo como há 40 anos, com uma cidade mais silenciosa e calma, com menos trânsito”, diz a moradora, que tem respeitado à risca a quarentena.

Além de se dedicar aos cuidados com a casa, Miriam também tem se dedicado a leitura e reflexões. Avalia que a capital terá que adotar um novo ritmo e isso vale inclusive para a questão da coleta de lixo e recicláveis.

“Aqui em casa, já separamos os recicláveis há muitos anos. E acho que o volume aumentou na quarentena por conta da compra de refeições prontas”, diz ela. Miriam admite que não é tão afeita a cozinhar, mas também aponta que planejamento de compras e do cardápio é a melhor maneira para combater o desperdício e os gastos excessivos.

“Como somos apenas em dois, muitas vezes comprar alimentos perecíveis é um risco. Os produtos podem estragar ou a quantidade de comida feita em casa pode ser excessiva. Ninguém aguenta comer o mesmo cardápio a semana toda, então muitas vezes é melhor pedir refeição pronta, em quantidade adequada para nós dois, aí nada vai para o lixo e conseguimos diversidade de nutrientes”, conta. “Eu tenho horror a desperdício, então procuro fazer ou encomendar tudo na medida, reaproveitar o que for possível nas refeições seguintes ou congelar alimentos”, conta. Em síntese, a lição de Miriam é a de que cada casa tem uma realidade e o essencial é fazer planejamento. “Assim, a gente economiza, porque não desperdiça alimentos, e ainda evita a produção de lixo não reciclável”, observa.

Outra preocupação de Miriam é com o óleo usado em frituras, na cozinha. “Não coloco no lixo comum e nem despejo pelo ralo: pode danificar tanto meu encanamento quanto a tubulação na cidade. Entregamos para uma entidade no bairro, que transforma o óleo usado em sabão e ainda gera renda”, conta.

Renda menor

Já na família de Gabriel Gonçalves Oliveira, as transformações resultantes da pandemia foram sentidas inicialmente na renda. Ele trabalha no atendimento ao setor gastronômico, que permanece de portas fechadas por conta da quarentena.

Com a queda abrupta nos ganhos e também pela impossibilidade de sair, ele e a esposa passaram a cozinhar mais em casa. “Pedíamos refeições em casa, mas agora estamos evitando esse gasto”, diz.

Eles notaram o aumento na geração de embalagens de alimentos – latas, caixas, potes plásticos principalmente. E, habituados que são, há muitos anos, separam todo esse material para a coleta seletiva. “Antigamente, eu mesmo levava com meu carro. Agora, a coleta seletiva passa na porta, todas as quartas-feiras”, diz ele.

A coleta seletiva é feita na zona sul paulistana pela concessionária Ecourbis, em dias diferentes da coleta tradicional e com caminhões e equipes diferentes. Para saber o dia e horário em que cada um desses serviços é prestado em sua rua, acesse: https://www.ecourbis.com.br/coleta/index.html. Os resíduos devem estar bem acondicionados, ocupando até dois terços do volume total do saco, e precisam ser colocados na via pública no máximo duas horas antes do previsto para a coleta.

No caso da família de Gabriel, desperdício é igualmente palavra proibida na rotina doméstica. “Compramos o necessário, prepararmos o suficiente e nunca sobra no prato”, relata. E faz questão de dizer que esse hábito já vem há anos, apenas tem se mostrado ainda mais importante na quarentena.

O morador do Jardim da Saúde ainda relata que, por conta da paralisação em seu ramo de atividades, foi necessário ocupar o tempo com coisas úteis – cozinhar foi uma delas. Mas o casal também tem ocupado o tempo lendo e cuidando da manutenção da casa, com pintura e pequenos reparos.

“Em casa temos uma micro horta e captamos a água da chuva para irrigação das plantas e lavagem do quintal – são hábitos antigos, também”, relata ele, que diz estar lidando bem com a pandemia. “Sinto falta de sair para parques e viagens”, admite, apontando a importância do contato com a natureza.

Ciência é essencial

Rogério Nagai é empresário, ator e produtor cultural. Mora em Mirandópolis com a esposa, em um prédio. “O condomínio já faz separação de recicláveis e lixo comum muito antes da quarentena, então separar para a coleta seletiva já faz parte de nossa rotina”, conta ele.

Com mais tempo durante a quarentena, o casal passou a produzir mais as refeições caseiras, em vez de fazer pedidos em restaurantes ou comprar alimentos industrializados.

A opção por uma alimentação mais saudável e planejada em casa não foi a única coisa que mudou na rotina do casal. “Passei a ler livros que estavam acumulados há anos e, pode ter certeza, muito da minha visão mudou”, admite.

“O mundo inteiro está hiperconectado e que qualquer ação que façamos, mesmo que isoladamente, afeta não só nossa comunidade, mas o mundo inteiro”, observa, referindo-se inclusive às questões ambientais e às agressões à natureza que podem trazer consequências como a própria pandemia. “Fortaleceu ainda mais minha visão que precisamos investir na educação e ciência, em pesquisas”, conclui Nagai. Ele ainda teme que as ações sociais desenvolvidas durante a quarentena desapareçam após o controle da pandemia. “Espero que eu esteja errado”, observa.

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