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História

Unifesp abre comissão para investigar ações contra professores e alunos durante a Ditadura Militar

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Mais um grupo passará a investigar os excessos e crimes cometidos durante a Ditadura Militar. Agora, é a Unifesp que lançou sua própria Comissão da Verdade para investigar ações contra professores, alunos e funcionários da EPM (Escola Paulista de Medicina) que hoje integra a estrutura da Unifesp, no período de 1964-1985. A comissão terá como nome Marcos Lindenberg, que foi diretor da então Escola Paulista de Medicina e reitor da Universidade Federal de São Paulo entre 1959 e 1964 e atuou decisivamente no processo de federalização da EPM. Foi ele quem conseguiu estruturar a Universidade Federal de São Paulo, chamada à época de UFSP. Em 1964, a ditadura revogou os decretos que criavam a Universidade e exonerou compulsoriamente Marcos Lindenberg da reitoria e do cargo de professor. Alguns anos após o afastamento da vida acadêmica forçada pelo regime, Lindenberg faleceu em casa aos 78 anos.

O lançamento oficial da comissão aconteceu esta semana em uma solenidade da qual participaram a reitora da Unifesp, Soraya Smaili, a presidenta da La Asociación Civil Abuelas de Plaza de Mayo, Estela de Carlotto, os representantes das Comissões da Verdade em âmbito nacional (o ex-preso político Anivaldo Pereira Padilha), estadual (deputado Adriano Diogo) e municipal (vereador Gilberto Natalini), além de Marcos Lindenberg Neto e do estudante de história Elson Luiz da Silva, integrante da Comissão da Verdade Marcos Lindenberg.

A reitora iniciou a solenidade falando sobre o compromisso de sua gestão em apurar a verdadeira história da Unifesp e de contá-la à comunidade universitária. “A Escola Paulista de Medicina deu origem a uma grande universidade, que hoje é a maior Universidade Federal do Estado de São Paulo e que tem uma história, que é desconhecida pela ampla maioria das pessoas que a compõem. A construção dessa identidade passa pelo conhecimento e compreensão daqueles que aqui estiveram, daqueles que lutaram, daquelas que foram esquecidos, daqueles que precisam ter sua memória lembrada, daqueles os quais nós precisamos fazer reparos, reparos históricos importantes”, afirmou a reitora.

Soraya salientou, ainda, que a reitoria, apesar de ter impulsionado a criação da Comissão da Verdade Marcos Lindenberg, não pretende interferir no curso dos trabalhos, conferindo ao grupo plena autonomia para fazer as investigações necessárias.

“Estamos ainda caminhando, dando os primeiros passos na conquista da memória, da verdade. Ainda não chegamos na justiça, como vocês na Argentina já chegaram”, afirma Padilha, se dirigindo à Estela Carlotto, que perdeu uma filha de 23 anos, torturada e morta pela ditadura militar argentina. Laura Carlotto era estudante de história da Universidade de La Plata e opositora do governo militar. Ela foi sequestrada grávida, deu à luz em um cativeiro e foi assassinada logo na sequência. Estela, mãe e avó atingida pelo regime, está à procura do neto até hoje, o que a motivou a fundar a Asociación Civil Abuelas de Plaza de Mayo, que procura por crianças sequestradas e desaparecidas durante a ditadura.

Estela conta que se recorda claramente de uma conversa que teve com Laura sobre deixar o país, já que sabia que ela seria morta se continuasse na Argentina. Segundo ela a resposta foi categórica: ” Não vou, porque meu projeto de vida está aqui”, conta emocionada.

“Esta senhora representa a resistência mais enfática contra os absurdos cometidos pela ditadura na América Latina. Desde que seu neto foi sequestrado, ela saiu de casa e foi para as ruas e desde então nunca mais parou de lutar pela memória e pela reparação, mas acima de tudo pela justiça”, diz Adriano Diogo.

Gilberto Natalini, médico formado pela Escola Paulista de Medicina, reitera a importância da instalação da Comissão da Verdade Marcos Lindenberg para resgatar a memória dos que foram vítimas do regime. “Essa Comissão da Verdade que está sendo formada aqui tem como missão colocar tudo isso pra que todos possam ver como aconteceu a ditadura militar dentro da nossa instituição, pra resgatar [as memórias] dos que foram vitimas do regime e ao mesmo tempo apontar aqueles que ajudaram a fazer a perseguição dentro da universidade”, conta.

Marcos Lindenberg Neto falou sobre sua convivência com o avô no período em que ele praticamente viveu preso dentro da chácara onde moravam e do significado da implantação desta Comissão da Verdade pra ele e para toda a família. “Resgatar essa memória do ponto de vista pessoal para que essas coisas não aconteçam mais, para mim é o de mais importante”, relata.

 

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