Cultura
Museu Lasar Segall tem nova mostra com obras de Paulo Pasta
Éuma delícia passear pelos jardins do Museu Lasar Segall e visitar o acervo desse artista plástico de origem lituana que viveu na Vila Mariana. Então, é sempre bom conferir as exposições em cartaz e também os filmes em exibição no Cine Segall. O museu, que fecha somente às terças, tem entrada gratuita e ali, além de poder conhecer a obra de Segall, sempre há novas mostras. Desde 28 de março, por exemplo, o visitante pode conehcer de perto a obra de Paulo Pasta.
Para o curador Luiz Armando Bagolin, a pintura de Paulo Pasta se desenvolve como uma prática de permanência diante daquilo que nunca se resolve inteiramente. “Cada quadro surge menos como resultado do que como consequência de um estado anterior da pintura que já não podia prosseguir sem se transformar, de decisões que permanecem ativas mesmo depois de aparentemente concluídas e, sobretudo, de uma atenção prolongada. A cada nova tela, algo precisa ser ajustado — não porque tenha falhado antes, mas porque a própria pintura altera as condições do que pode vir a seguir”, apresenta.
Ele explica que na obra do artista a cor deixa de funcionar como elemento expressivo imediato e passa a constituir um campo de relações formado lentamente por aproximações sucessivas. “As tonalidades se estabelecem por camadas que se corrigem mutuamente, produzindo uma presença que depende menos do impacto do que da duração. O gesto perde a condição de acontecimento visível e transforma-se em instrumento de observação; pintar passa a significar acompanhar aquilo que a superfície solicita, aceitando que o quadro se constrói menos pela imposição da vontade do artista do que por uma negociação contínua entre decisão e espera. O tempo deixa de ser apenas medida do trabalho para tornar-se sua própria substância”.
E segue definindo que, na pintura de Paulo Pasta, a história da arte não aparece como repertório de soluções disponíveis, mas como um campo de forças no qual a cor precisa continuamente reencontrar sua posição. Cada quadro nasce dessa situação instável. Não há conclusão definitiva: uma pintura conduz à seguinte não por desenvolvimento linear, mas por necessidade interna, como se cada obra surgisse do ponto em que a anterior já não podia responder às questões que ela mesma abriu. “O trabalho avança menos por resolução do que por deslocamento”, aponta Bagolin
Para ele, a dimensão intelectual do artista — visível em sua atuação como professor e curador — não surge como teoria aplicada à pintura.
O curador convida os visitantes e perceber que algumas telas estabilizam conflitos cromáticos em equilíbrios precários; outras deixam visível o esforço da construção; outras parecem alcançar uma clareza inesperada que logo volta a se tornar problemática. O trabalho vive dessas oscilações.
“Nesse ponto, a pintura de Paulo Pasta revela sua singularidade: não busca o equilíbrio como repouso, mas como estado provisório diante de uma instabilidade fundamental. A precisão não elimina o risco; torna-o perceptível. O rigor funciona menos como controle do gesto do que como condição para que a sensibilidade não se dissolva em espontaneidade. Entre cálculo e abandono, cada quadro parece testar novamente a própria possibilidade de pintar”.
Mais do que isso, há momentos em que a superfície parece quase imóvel, mas basta um leve deslocamento do corpo para que a cor se transforme, absorvendo ou devolvendo a luz de maneira inesperada. “Nada muda objetivamente — e, no entanto, o quadro já não é o mesmo. A pintura acontece nesse intervalo mínimo entre olhar e reaparecimento”.
Serviço: Paulo Pasta | Exposição Precisão e Espírito – Curadoria de Luiz Armando Bagolin. Visite de quarta a segunda das 11h às 19h (fechado terças). Grátis. Museu Lasar Segall (Ibram/MinC): Rua Berta 111, Vila Mariana (a 500m da estação Santa Cruz).


