Jornal São Paulo Zona Sul

Futuro da Cinemateca está em risco

O maior acervo audiovisual da América Latina, armazenado em um incrível prédio que é patrimônio histórico da cidade, está em risco. A Cinemateca Brasileira, que ocupa o antigo Matadouro Municipal na Vila Mariana, não recebe recursos desde o ano passado – nenhuma parcela do valor previsto para 2020, de 12 milhões de reais, chegou até agora. E já em 2019, o valor previsto não foi repassado integralmente.
Em meio a essa situação, que já vinha gerando protestos e um abaixo-assinado online da comunidade vizinha e do setor audiovisual, o presidente Jair Bolsonaro anunciou que Regina Duarte vai “assumir” a Cinemateca (veja matéria ao lado).

A atriz vinha ocupando a Secretaria Especial da Cultura, que agora está totalmente vinculada ao Ministério do Turismo e já perdeu status desde o início da gestão. Mas, depois de dois meses evitando dar declarações públicas, anunciar projetos ou garantir transparência às ações da Secretaria, Regina deixou o cargo que passa a ser ocupado pelo também ator Mário Frias.

Acervo rico e delicado

Até a década de 1980, a Cinemateca ocupava dois imóveis antigos dentro do Parque Lina e Paulo Raia, junto à estação Conceição do Metrô.

Foi quando surgiu a proposta de recuperar o antigo Matadouro Municipal, um galpão antigo na Vila Mariana onde no início do século XX eram abatidos os animais para consumo na capital.

A proposta demorou para ser concretizada, mas em 1997, a Cinemateca finalmente se estabeleceu lá. Além da preservação do acervo, a instituição sempre promoveu exibições de clássicos, festivais e eventos na área.

Desde 2003, passou a fazer parte da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura -e um período bastante produtivo se iniciou, com atividades de preservação e difusão de acervos, além de melhorias estruturais, com recursos investidos pelo antigo Ministério da Cultura, em parceria com a Sociedade Amigos da Cinemateca.

Mas, em 2013, a então Ministra da Cultura Marta Suplicy exonerou o diretor e cortou repasses de verbas.
De lá para cá, a crise se estabeleceu, com momentos melhores e piores. Mas houve perdas de funcionários, mudanças estruturais administrativas… Em 2016, o quarto incêndio atinge o acervo e resulta na perda de mais de mil rolos de filmes.

Depois dessa tragédia e a comoção criada, o antigo Ministério da Cultura esta beleceu contrato com a Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto – Acerp, organização social qualificada pelo Ministério da Educação, para execução de um projeto de preservação e acesso de acervos audiovisuais, da Cinemateca. Em 2018, o contrato foi estendido para que a Acerp gerenciasse totalmente a Cinemateca por três anos.

Mas, de acordo com a Associação Brasileira de Preservação do Audiovisual, no final de 2019, o Ministério da Educação decidiu não renovar o contrato de gestão com a ACERP, por conta do fim da TV Escola, projeto também gerido pela Associação, deixou em aberto os rumos da administração da Cinemateca Brasileira. No mesmo período, os funcionários públicos remanescentes que compunham o quadro da instituição foram remanejados para outros organismos federais, afastando trabalhadores de ampla experiência na área.

“Essa situação esquizofrênica dificulta a atuação do governo com a urgência necessária para impedir a falência da Cinemateca, enquanto a administração pública se dedica a desenhar uma solução de longo prazo”, aponta um abaixo assinado que já tem mais de 11 mil assinaturas.

A petição online, disponível no link bit.ly/3edziP8, ainda relata que, em fevereiro deste ano, as instalações da Cinemateca na Vila Leopoldina, que abrigavam parte do acervo, foram atingidas por uma enchente. “Novamente a Secretaria do Audiovisual se absteve de suas responsabilidades, não esclareceu eventuais perdas, nem adotou medidas para proteger as coleções em perigo. Se a indiferença com o futuro do patrimônio audiovisual brasileiro persistir, as consequências serão ainda mais graves. Sem os cuidados dos técnicos e as condições de conservação todo o acervo se deteriorará de modo irreversível.

A notícia de que ”uma pequena parte” dos rolos destruídos pelo incêndio não tinha sido copiada é alarmante, pois significa que essas imagens e sons do passado do cinema brasileiro se foram para sempre. O fato dos filmes destruídos estarem em domínio público, como informa a mesma nota oficial, ressalta apenas que essa perda foi de todo o povo brasileiro.

Comentar