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Cultura

Arte permite novo olhar sobre autismo em espetáculo teatral na Vila Mariana

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Os primeiros dias não foram simples. Mas é na complexidade, talvez, que se encontre a beleza, a arte… E aos poucos, os jovens de espectro autista que compõem o elenco do espetáculo AUT, em cartaz na Vila Mariana, mostraram que o palco transforma, desvenda, proporciona reencontros.

O diretor da peça e coordenador da Oficina dos Menestreis, Deto Montenegro, já havia criado montagens com cadeirantes, deficientes visuais, jovens com síndrome de down… Mas relata que a experiência com os 23 autistas foi realmente diferente.

“Meu objetivo não é entender o quadro, me aprofundar no autismo. Eu quero é traze-los para o meu mundo, a arte.E o palco transforma a todos”, relata ele.

A experiência única na longa carreira de Deto começou nos ensaios iniciais. O ator e diretor sempre trabalhou com  profissionais de todas as áreas, mostrando a importância da arte para desenvolver a sensibilidade e melhorar a qualidade de vida de todos. Expandiu este trabalho ao montar espetáculos para pessoas com deficiências. Mas os autistas eram diferentes.

“Em geral, eles não têm qualquer dificuldade em decorar o texto, manter-se na posição exata. São precisos. Mas, talvez exatamente por isso, demonstram menor capacidade de improviso”. Ele se surpreende, entretanto, ao relembrar da alegria que sentiram ao ver o público aplaudindo, ao final do espetáculo, que estreou no domingo passado e tem mais duas apresentações: dias 26 de maio e 2 de junho, 16h30.

E não foi só o diretor Deto Montenegro que percebeu a transformação dos jovens. Conhecidos pelas dificuldades em se comunicar e manter níveis de socialização, os jovens do espectro autista,  quando iniciaram os ensaios, levaram para o teatro algumas dessas características. “Eles não se cumprimentavam, não interagiam”, conta Ana Maria, a mãe dos gêmeos Renato e Rafael, que participaram da montagem.

Em seus filhos, ela pôde enxergar a transformação que Deto Montenegro também comentou. “Hoje, chegam e cumprimentam todos os colegas.. Até se abraçam, coisa quase que impossivel para um autista, olham nos olhos uns dos outros”, conta Ana Maria.

“No caso dos meus filhos, um problema é a comunicação: a voz era para dentro, como se fosse um medo de falar, se expor. Mas agora falam alto no palco, nem o microfone é necessário”, celebra a mãe.

Rafael e Renato, assim como os demais 21 integrantes do elenco, também parecem não terem sucumbido ao fato de terem se apresentado, com textos, falas e danças para um público de mais de quatro centenas de pessoas.  “A exposição para eles é difícil, mas aprenderam a lidar, assim como com as mudanças repentinas de rotina, sem surtos”, relata, emocionada.

Deto também percebia estas dificuldades iniciais. Mas ele conta que a todo momento, chamava os jovens “de volta”, fazia com que olhassem diretamente. O palco parece ter buscado algo interior, realmente. “O palco encanta para sempre”, resume Deto.

Para a mãe dos gêmeos Rafael e Renato, a participação no projeto AUT foi importante não apenas pelas transformações provocadas nos jovens através da arte. Mas, porque o público pôde perceber a essência dos seres humanos do espectro autista.  “Nós, pais, sempre soubemos da capacidade dos nossos autistas. Faltava alguém que pegasse essa responsabilidade e acreditasse neles”, diz.

O Teatro Dias Gomes fica na Rua Domingos de Moraes, 348 e promove oficinas voltadas a pessoas com ou sem deficiências. Informações pelo telefone 5575-7472, de segunda a sexta, das 13h às 19h.

 

Deto Montenegro, experiente em oficinas artísticas para “não atores’”, desenvolveu projeto e montou espetáculo com jovens do espectro autista como Rafaele Renato

 

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8 Comentários

8 Comments

  1. Beatriz Procopio

    24 de maio de 2013 at 16:29

    Vale a pena conferir de perto essa linda experiência de vida!! Eu fui e indico a todos!!

  2. Ana Maria

    24 de maio de 2013 at 18:08

    É uma felicidade imensa ver meus filhos nessa peça, Rafael e Renato me surpreendem a cada dia. Cada um ali, cada autista está superando seus limites e mostrando seu talento e capacidade.

  3. Maria Inês Lucchesi

    28 de maio de 2013 at 12:38

    Eu vou assistir no próximo domingo, dia 02/06. E, Ja me sinto grata pela iniciativa do diretor Deto Montenegro, que criou, projetou e concretizou o Espetáculo, com jovens do espectro Autistas. Parabéns!!!!!!!!!!

  4. Catarina

    28 de maio de 2013 at 22:30

    Nooosa! Que coisa ESPETACULAR!

  5. Rosana

    3 de junho de 2013 at 15:35

    Gostaria muito de ver esse espetáculo… Tenho um sobrinho autista, gostaria muito de leva – lo. A peça será prorrogada ou terá apresentações em outros lugares?

  6. Ana Maria

    3 de junho de 2013 at 17:02

    Queria dizer que as 3 apresentações foram maravilhosas, teatro lotado em todas as apresentações. Queríamos muito sessões extras, vai depender dos pedidos para a Oficina dos menestreis.

  7. Marcia

    8 de junho de 2013 at 23:52

    Andei mais de 600kms para assistir a este espetáculo que me comoveu muito mais do que esperava pelo o amor, a dedicação de todos que contribuíram para esse evento.
    Acredito que é possível esse espetáculo se estender ao local onde moro, ou próximo de minha cidade de Martinópolis-Sp., região de Presidente Prudente.
    Parabéns ao diretor e a todo elenco!

  8. Tamires Reis

    27 de junho de 2013 at 16:15

    Sou estudante de Pedagogia e, me interessei nesta capacidade que o teatro tem de alavancar o desenvolvimento de criancas autistas.
    Irei criar um projeto em meu curso, que envolva este tipo de atividade e, gostaria de saber mais sobre as dificuldades que as criancas autistas enfrentam, quais as maneiras de estimular o desenvolvimento delas, etc.
    Alguem poderia me indicar algum livro, site ou qualquer outra fonte de informacao?

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