Jornal São Paulo Zona Sul

Pequenas atitudes podem mudar o mundo

Da janela de seu apartamento, Sergio Shigeeda via um terreno esquecido, onde havia despejo irregular de entulho e a consequente degradação urbanística, resultando até em comprometimento da segurança.

Formado pela Universidade de São Paulo, Shigeeda sempre trabalhou com informática e Tecnologia da Informação. Mas também sempre teve sua história de vida, sua trajetória pessoal marcada pelo amor e contato constante com a natureza.

Iniciativa

Ele e alguns amigos não se conformavam em não fazer nada para mudar aquela paisagem. Um grupo, então, se formou para transformar aquela área: surgiria, ali, algo inédito no bairro: uma horta comunitária.

No final de 2019, a Horta Comunitária da Saúde comemorou seus cinco anos com bolo e muita gente estava lá para comemorar. Sérgio Shigeeda ao centro, lembrava o trabalho árduo, mas também as muitas horas de conversa agradável, as colheitas, o reaproveitamento de resíduos que antes iam para o lixo comum e agora fazem nascer vida naquele pedaço.

Até as cascas de ovos que usa em suas receitas, Sérgio Shigeeda leva para calcificar o solo da horta. “O segredo está no solo rico e vivo. Terrenos com monoculturas perdem nutrientes com o tempo, o que atrai pragas, formigas…”, explica Sérgio. Aliás, dar verdadeiras aulas de respeito à natureza e cuidados com a alimentação estão entre os maiores prazeres da vida para Sérgio atualmente.

Trajetória

Se hoje Shigeeda é considerado, por aqueles que acompanham sua agenda repleta de eventos, um ativista ambiental engajado, talvez a história pessoal desse analista de sistemas explique um pouco de sua paixão pela natureza.

Desde a infância no Mato Grosso, passando por experiências como pecuarista, amante da pesca e do cultivo das mais diversas espécies de plantas, Shigeeda sempre foi conectado de alguma forma à natureza.

“Eu já mantinha vasinhos de temperos na varanda do apartamento”, relembra. Agora, é inegável que a horta amplificou ações. “Hoje tenho uma horta na varanda”, compara.

Mas, Shigeeda sabe que a horta, na verdade, modificou para sempre sua maneira de relacionar com o bairro, com a vizinhança… com o planeta. “Apesar dessa conexão com a natureza, eu nunca tinha ouvido falar em sustentabilidade”, admite, explicando que qualquer pessoa pode adotar novas atitudes, a qualquer tempo.

Nesses cinco anos, Sérgio conseguiu atrair dezenas de voluntários para trabalhar no plantio daquela área que no passado já foi símbolo de abandono e descaso. Transformou sua turma do futebol em equipe que defende a saúde de maneira mais ampla, cultivando o apreço por preservação da natureza, alimentação sem agrotóxicos, respeito ao relacionamento com o próximo, atividade social engajada.

Coletividade

Passou a participar de uma série de ações e eventos que transformam a comunidade. do Meio Ambiente , Desenvolvimento Sustentavel e Cultura da Paz (CADES) da Subprefeitura de Vila Mariana e também a equipe da Agenda 2030 – que reúne uma série de objetivos para melhoria do planeta por meio do foco no desenvolvimento de ações locais.

Foi um dos idealizadores e viabilizador, através do coletivo da Horta da Saude e Agenda 2030/Cades Vila Mariana do plantio da primeira minifloresta urbana, na Praça Soichiro Honda.

Também foi um dos principais viabilizadores, junto ao coletivo da Horta e da Agenda 2030/Cades Vila Mariana para realizar o Corredor Polinizador do Instituto Biológico, iniciativa pioneira no país – e terceira no mundo! – para atrair poliniza-dores através do plantio de espécies vegetais meliferas e avi fauna. Plantio Global, Plantando Juntos, Floresta de Bolso junto à Represa do Guarapiranga são algumas das outras iniciativas que ocupam a agenda atual de
Shigeeda.

Também participou e incentivou a criação de uma feira livre que oferece unicamente produtos de origem orgânica, de pequenos produtores, promovida semanalmente também no bairro da Saúde. “É a primeira feira orgânica noturna da capital, que aconteceu de forma experimental em outubro e novembro e deve voltar de forma definitiva em março de 2019”, relata.

Mas ele acredita que cada indivíduo pode contribuir de alguma forma e a horta comunitária da saúde é o maior exemplo disso. “Comece com atitudes pequenas, boas práticas, e em breve estará totalmente envolvido”, diz ele.

Há pessoas, ali, que só vão aos mutirões – realizados todo segundo domingo do mês (exceto feriados e datas especiais), das 9h00 às 13h00. Mas há aquelas que estão sempre por ali, colhendo mudas, levando material para produção de humus, ajudando na conservação… O grupo na rede social Facebook já reúne mais de 5 mil pessoas envolvidas com a iniciativa.

Diversidade

Com a horta comunitária, Sérgio Shigeeda aprendeu muito. Especialmente, entendeu que é na troca de informações que está o maior dos ganhos. Ele compartilha a colheita da horta, mas divide também os conhecimentos adquiridos.

Hoje, ali, por exemplo, há abelhas polinizadoras de diferentes tipos para garantir a diversidade e a capacidade natural da horta. Tem também composteira que recebe material de prédios vizinhos cadastrados previamente. A água da chuva é coletada em grandes caixas, todas protegidas contra proliferação de larvas.

Tem produção totalmente orgânica, sem uso de agrotóxicos, e tem participação da comunidade toda do entorno.

Tem aulas e troca de informações com especialistas – em apicultura, em PANCs (Plantas Alimentícias não Convencionais). Tem “ora pró-nobis”, planta famosa por ser rica em proteínas, tem alho selvagem, capuchinhas, temperos, rabanetes, bananas, mamão, PANCs diversas, flor de mel, milho de grilo… “É essa diversidade que garante um solo rico, evita formação de formigueiros e nos ensina muito sobre alimentação saudável”, conclui Shigeeda.

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