Jornal São Paulo Zona Sul

Entidades pedem memorial contra tortura

O pátio junto à delegacia da Rua Tutóia, 921, na Vila Mariana, ficou lotado na segunda-feira. Eram parentes de vítimas da ditadura militar, unidos a políticos de diferentes partidos, todos em defesa de ideais democráticos e dispostos a marcar a luta contra a opressão, a tortura e a violência, em uma cerimõnia que lembrou os 50 anos do Golpe Militar, de 31 de março de 1964. “Estamos aqui hoje para que aquele horror nunca mais aconteça”, declarou Maria Amélia de Almeida Teles, ex-presa política e uma das fundadoras da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos. Ela ficou presa por um ano no DOI-Codi. “Vi amigos serem mortos aqui. Vi minha irmã, grávida de oito meses, levar choques na barriga. Aqui foi lugar de estupro. Eu fui torturada aqui”, relembrou. Transformar em centro de memória as instalações da Rua Tutoia, que já abrigaram o Doi Codi, um violento órgão onde foram torturados e mortos dezenas de presos políticos, a exemplo do que ocorreu com a antiga sede do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), foi uma das propostas apresentadas no manifesto lançado por organizações de direitos humanos.
O prefeito Fernando Haddad esteve no local e assinou parceria com a Unifesp, a Universidade Federal Paulista (veja abaixo), para que as ossadas encontradas em Perus sejam analisadas. Ele se mostrou favorável à ideia de transformar a delegacia em memorial. “Há projetos em curso. Uma maneira de não repetir os erros da ditadura é manter a história viva”, disse.
No final de março, o decreto do governo estadual que permitia o uso do imóvel pelo Exército foi revogado. O pedido foi feito pelo deputado Adriano Diogo, ex-preso político, que preside a Comissão Estadual da Verdade Rubens Paiva. Em janeiro deste ano, o prédio foi tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat), com o objetivo de consolidar a transformação do espaço em memorial das vítimas da ditadura.
O ato na Vila Mariana, entretanto, foi além. Os participantes pediam a desmilitarização das polícias, por entender que a banalização dessa violência é “a pior herança da ditadura”. Segundo as mais de 140 organizações que assinam o manifesto, as mortes que eram acobertadas por falsas versões de suicídio, atropelamentos e mortes em tiroteios, durante o regime militar, têm uma forma atual: os registros policiais de “resistência seguida de morte” para ocultar o “extermínio de jovens negros e pobres de nossas cidades”.
A música Suíte de Pescador, de Dorival Caymmi, abriu as apresentações culturais em homenagem aos ex-presos políticos. “Meus companheiros também vão voltar. E a Deus do céu vamos agradecer. Cantávamos isso quando nossos amigos eram levados para serem torturados”, relembrou Gilberto Natalini, que foi torturado pelos agentes da repressão e, atualmente, é vereador pelo Partido Verde, em São Paulo.
A advogada criminalista Rosa Cardoso, que integra a Comissão Nacional da Verdade (CNV), destacou que o DOI-Codi tem uma importância histórica e política, “não só pela quantidade de pessoas que foram mortas, desaparecidas, mas, também, por ter se constituído como referência para outros destacamentos instalados no Brasil”. Ela explicou que a sede abrigou, inicialmente, a Operação Bandeirantes, a qual, segundo apurações da Comissão Estadual da Verdade, contou com o financiamento de empresários paulistas. A advogada acredita que esse modelo de “tortura e extermínio” foi exportado para outros estados.
(com informações da Agência Brasil)

 

Ato na Rua Tutóia, na Vila Mariana, onde ficava o Doi Codi, reuniu familiares de vítimas e políticos de diferentes partidos

 

Unifesp sediará identificação de ossadas de desaparecidos políticos da ditadura

 

O evento na Vila Mariana também marcou o início de uma parceria entre a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC) e a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), da Vila Clementino. A ideia é identificar de restos mortais de desaparecidos políticos durante o período entre 1964 e 1988, que foram encontrados em vala clandestina do cemitério Dom Bosco, em Perus, na zona norte da cidade. Familiares das vítimas vão poder acompanhar os trabalhos.
A secretaria municipal de Direitos Humanos e Cidadania acompanhará os trabalhos de análise, auxiliará na viabilização das condições técnicas necessárias para a identificação e atuará na coleta dos dados ante mortem, além de oferecer hospedagem para as equipes internacionais que participarão das atividades. A universidade deverá disponibilizar local adequado para a realização dos trabalhos e destacar representante para acompanhar o trabalho científico do Grupo de Arqueologia e Antropologia Forense (GAAF) da SDH/PR. Serão contratados técnicos, laboratórios e especialistas que atuarão na análise dos restos mortais.
Cerca de 20% dos mortos durante o período da ditadura estão concentrados em São Paulo, de acordo com o secretário municipal de Direitos Humanos, Rogério Sotilli.
A identificação dos corpos dos desaparecidos políticos e o esclarecimento das circunstâncias de suas mortes é uma das mais significativas reivindicações de familiares das vítimas.
A ação será financiada pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.

 

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